A Região Centro de Portugal

A mentalidade das gentes do Centro distingue-se das dos demais portugueses. Não se diz que é do sul ou de Lisboa com a convicção e naturalidade como se diz que é do norte (centro), e se fala dele. As pessoas do norte defendem-no como se devia defender Portugal no mundo, com naturalidade e sem complexos.

As raparigas do norte têm belezas únicas, olham de frente, pensam  em tudo e dizem tudo o que pensam. São arrumadas e elegantes mas sem  vaidades, envergonhadas às vezes, mas autênticas. As  mulheres silenciosas convencem os maridos com a sua maneira calada.

As velhas de carrapito perfeito, a cor dos olhos endurecida pelas contrariedades dum árduo trajecto de vida.

No Verão as Festas proliferam pelos mais variados recantos. São três dias de excessos, foguetes a ecoar pelas serras, escolhe-se o melhor cabrito para assar, veste-se a melhor roupa, tudo organizado pelos elementos das Comissões e com a ajuda de todos.

Não faz mal beber demais e dançar até os pés incharem. Há amores que nascem nas festas. Que o digam os velhos. O arraial é toda a noite. Passam-se inúmeras vezes pelo mesmo sítio onde olhares negros nos prendem os movimentos..

Quando chega o primeiro indício da manhã ainda os homens e os rapazes bebem mais um copo, o corpo moído pensa já no baile do ano seguinte, que será melhor certamente.

É este o modo de pensar e viver das pessoas do norte. É  esta a  mentalidade  de um povo que enraíza  a humildade e exaltação pelos costumes de sua terra, de toda uma região!

Infelizmente, o progresso tende a uniformizar cada vez mais as tradições de um povo. Façamos um esforço por manter e cultivar a sua cultura, conservando a sua identidade, deixemo-nos levar pela espiritualidade das raízes do nosso ser.

 

A Barragem do Alto Ceira

Escondida entre os montes da Serra do Açor, bem perto da nascente do Rio Ceira, a Barragem do Alto Ceira constitui um local privilegiado pela natureza, bem agradável para se visitar.

A estrada que nos leva lá é já asfaltada, apesar da sua ainda quase clandestinidade em relação ao visitantes menos conhecedores, da preciosidade que ela representa para quem a frequenta e conhece, pelo menos, pelo sossego e pelo encanto que naquele local ainda se consegue reunir e contemplar.

Não é uma grande albufeira, mas, pela sua localização, entrincheirada entre o verde das altas e empinadas encostas que a circundam , dá-lhe um ar de mistério e fascínio.

É um contraste que maravilha, principalmente no Verão, quando ávidos de água, de férias nos ensolarados casarios, perdidos igualmente nos vales, é um regalo para os olhos e para o corpo, e apetece  olhá-la e usufruir desse recanto tão pitoresco e tão bonito, ao mesmo tempo tão calmo e saudavelmente abandonado que a natureza proporciona:

Andar de barco, pescar, nadar, uma tarde repousada à sombra das árvores que estão à sua beira, um piquenique, todas as restantes imagens que a envolvem, são vários os motivos para lá ir dar um passeio e gozar de tudo isto que a Barragem  comporta e oferece.

Se não conhece este recanto tão belo e natural faça por lá um passeio, mas depois guarde segredo!

 

O sol espalhava-se pelo mais escondido recanto da serra. Era mais um daqueles dias de Verão em que o sossego se realçava no lento caminhar do tempo. Era o domingo da Romaria da Nossa Senhora das Preces. Vale de Maceira.

Impelidos por uma grande devoção, gente oriunda das aldeias mais pequenas e longínquas, desbravavam vales e montanhas naquela direcção. A fé que os movia, que lhes tonificava a alma, atenuava-lhes o esforço de tão árdua caminhada.

Vale de Maceira

Romaria de Nossa Senhora das Preces

A meio, de qualquer modo, sempre existia alguma fonte, uma sombra, um bem aparecido pastor que lhes saciava a sede ou lhes fornecia leite a troco de uma simbólica gratificação.

Pelo meio, ficava igualmente Fórnea, semi-oculta, silenciosa e serena, atenta á passagem dos peregrinos que dela se abeiravam de fugida. Grupos e grupos de pessoas o fizeram por ali a pé com os olhos fitos no horizonte. Era sem dúvida um dos grandes motivos de festa, de religiosidade e alegria, que o tempo, como quase tudo fez esmorecer de intensidade e valor.

A distância, as dificuldades de acesso, a falta de um requerido e desejado progresso não impediam o júbilo e o encantamento por estas ocasiões, ao contrário, rejuvenesciam ainda mais o bem estar interior presente em cada um e contraído por todos.

Esses domingos de Verão de algumas décadas atrás, que a serra do Açor não esquecerá facilmente, também muita gente ainda os guarda no coração.

Recordações duma exausta caminhada, ziguezagueando por ladeiras, sob o azul do céu, duma multidão que se via em redor. A adoração a Nossa Senhora pedindo-lhe as mais íntimas preces.

A lembrança, enfim, de um dia diferente, que a magia do sonho se encarregava de prolongar pela noite dentro, que lhes ficava vincado na alma.

Apesar de tudo a tradição manteve-se, a Romaria da Nossa Senhora das Preces Vale de Maceira, continua, com mais ou menos fervor, com maior ou menor fé, é motivo para lá irmos conhecê-la. Revivê-la.

 

A caminho da Beira, Arganil...

Apetece sempre percorrer os caminhos da Beira; Arganil, visitá-la.

Na Primavera, os campos, os socalcos, estão verdes e floridos. No Verão proliferam as feiras e as festas. No Inverno é o branco da neve que  regala, o calor da lareira que conforta.

No Outono descobrem-se segredos duma noite cada vez mais longa, são as colheitas, as castanhas.

Por esses caminhos, sinuosos, tentam-nos os miradouros, uma capela, uma mesa de pedra, uma nascente ou fonte a meio caminho, uma imensidão de território envolto e escondido nas montanhas.

Não existe melhor sítio para onde fugir que este, que desde sempre escolhemos para ser nosso. É difícil resistir à contemplação dos riachos, dos lugarejos espalhados nos montes, da neve, ao desfrutar de toda a sua beleza natural.

E o melhor é que esta paz é mesmo verdadeira.

É uma sensação que só se sente por contraste com o  ritmo da vida de cidade.

O espaço perde-se nos contornos do céu e tudo isto surge-nos ao encontro para nos saudar.

O sossego que habita o horizonte invade-nos o olhar, instala-se na alma cada imagem.

Só quando abandonamos estes caminhos outrora percorridos em silêncio ou desfrutados pela primeira vez, se percebe que se deixou para trás alguma coisa que sempre nos faz falta; a todos quantos voltam ao bulício da cidade, chama-se paz e sossego e já poucos lugares o podem proporcionar.

 

Vale D'Égua

A história de uma pia abandonada

Algures entre o Porto da Balsa e Covanca, um pouco antes da Barragem do Alto Ceira, existia um povoado chamado Vale D'Égua que ficou abandonado no tempo.

Agora são apenas giestas e  silvas por  entre  as poucas paredes de pedra que ainda permanecem de pé, destino que o fogo, há alguns anos atrás, apressou a sentenciar.

Era um sítio estratégico que em tempos chegou ser Freguesia do então, ainda Concelho de Fajão. Situada perto da Barragem e banhado ao fundo pelo rio Ceira, era como tantas outras povoações que dele dependiam.

Foi algures  numa  dessas casas  abandonadas, que  já  será mais o sítio, que alguém foi encontrar uma pia. Uma peça de pedra, digna de museu, que resistiu, ao contrário da aldeia, até aos tempos de hoje. Apesar de pequena, pesa bem mais de 200 quilos, foram precisas mais de 4 pessoas para a conseguirem transportar, amarrada numa improvisada padiola, encosta acima, até à estrada, por entre os arbustos de um caminho estreito e abandonado no tempo.

Touxeram-na  de novo para  a vida, saindo do  esquecimento  e desamparo daquele lugar. Serão muitos os porcos que lhe darão de novo uso.

Existem muitos  outros sítios como  este que foram abrigo de muita gente, do  viver de muitas  gerações, tentáculos de povoações maiores, que não singraram nem resistiram às adversidades do local e do decorrer do tempo.

 

A Primavera na serra - no silêncio da natureza está uma aldeia à nossa espera

Quando a luz começa a invadir a noite e decide enfrentar as sombras do escurecer, quando o calor sente o desejo de descer às profundezas dos vales para junto dos riachos ir beber, é numa dessas tardes que chega por lá a Primavera.

Então, apetece viajar pela serra do Açor, percorrer os caminhos da Beira, subir as encostas até ao cume, olhar as paisagens que se perdem de vista no abandono do horizonte, esperando que a natureza nos devolva em troca algum sentido para o viver.

Pela manhã, o sol aparece ligeiro aos aglomerados de casas espalhados na imensidão. O vento passa primeiro pela viçosa vegetação do monte para se perfumar, e por vezes gosta tanto daquela carícia matinal que fica por lá a namorar.

Só quando a luz prateada passa no regresso, ao entardecer, depois de ter deixado os pequenos casarios que albergam a pouca vida humana é que, por vezes, a brisa enternecida se lembra de levantar e vir ainda cumprimentar as povoações.

Se por vezes não tem sono, vai, lentamente, a cada porta, segredar histórias de embalar a quem se apresta para adormecer, acabando também por ali pernoitar.

Então, quando a serra mergulha no silêncio e na escuridão, ouve-se a pouca população noctívaga que ainda habita aquele lugar.

Dentro do carro, seguimos atentamente os focos de luz que nos resguardam de tanto mistério, espreitando outros faróis longínquos que nos indiquem a direcção que temos que levar. Até que, ao virar mais um outeiro, damos pela presença duma aldeia.

Apesar de a olharmos tão sozinha na pouca luz, percebemos imediatamente que parece estar à nossa espera, que parece estarmos a chegar a uma aldeia perdida no céu!

 

Entardecer em Lisboa

Do cimo de uma das colinas, observo o deleitar vagaroso da luz, com a cidade plena e silenciosa mergulhando aos poucos em sombras e mistério.

Na luz do dia cada vez mais ofusca e enfraquecida sobressaem já as luzes da noite adormecida: os reclames luminosos mais impetuo­sos e os focos amarelos mais intensos dos candeeiros vão dando contor­no à geome­tria da cidade.

As poucas árvores, o pouco verde que faz vida com o cimento, vai denunciando a brisa que tempera o ar semiaquecido pelo sol antecedente. O azul do céu ainda é nítido por cima da minha cabeça mas olhando a poente já se confunde com os tons brancos e violáceos das horas do entardecer.

Um pouco mais abaixo, as casas, cada uma num ponto mais alto que a outra, vão-se agigantando pelo declive, parecendo dar as mãos para atingir o céu.

Com o escurecer vão-se definindo sombras que já só deixam perceber o espaço no seu todo, o simples destrinçar dos contornos do céu beijando os telhados das casas do cimo do monte.

Um avião passa ao longo escortinhando o azul e vem-me à ideia um mensageiro a anunciar a separação entre o dia e a noite.

À medida da ambientação das pupilas o que até à pouco parecia um pouco sumido vai adquirindo uma cor e uma nitidez diferentes.

A cada imagem, a cada pensamento e cada palavra que daí me ocorrem, foi cada pedaço de céu escurecendo, de repente vi-me envolto no amarelo da luz do candeeiro, na miopia de distinguir para além disso, dei conta que já era completamente noite.

Lisboa vista de cima

Lisboa, enquanto cidade, é encantadora. Aparte a agitação do dia a dia, a azáfama constante e o «stress» que provoca, é interessante sentir-lhe o pulsar.  Ignorando-se a indiferença nos olhares das pessoas que nela circulam, dos gestos maquinais que o quotidiano lhes impõe, é ainda assim gratificante fazer dela parte.

É uma cidade rica em monumentos, que nos chamam a atenção. É tão charmosa quanto antiga e tão misteriosa quanto a dimensão o permite. Estende-se linearmente ao longo de sete colinas, junto do rio Tejo, e por isso, é envolta de um tão grande mistério que nem mesmo a noite o consegue desvendar. A sua vida nocturna é bastante animada.

Mas Lisboa deslumbra igualmente à luz do dia: os seus lugares históricos maravilham qualquer um. Uma visita ao Castelo de S. Jorge, de onde se avista quase tudo; ao Jardim Botânico, onde se realça a vegetação tropical e não só. Depois existe o Metro que nos leva num instante de um lugar a outro distante. Uma enormidade de táxis que ajudam a congestionar ainda mais as avenidas. Autocarros cheios até não haver sequer espaço para um sorriso, nem disposição, nem posição!...As intermináveis filas de carros a sair e a entrar na cidade e no interior.

Uma quantidade imaginável de pessoas a usufruírem de tudo isto e outras tantas, a pé, pelos passeios e pelo meio dos carros que os ocupam.

Lisboa é tudo isto. É tudo isto que a faz capital. Só conhece na essência e realmente um lugar quem não vive desde sempre ou nunca lá viveu. É por tudo isto que um não alfacinha a compreende e admira mais.     

 

O Inverno na Serra do Açor!

O Inverno é pouco mais que insuportável. A alma tirita de frio. Cresce o bolor pelos cantos das salas, pelos socalcos dos lameiros descem cascatas de límpida água, até se afundarem nos açudes ou se perderem no riacho.

Sobre este, de água gelada e transparente, as longas cabeleiras de limos são puxadas pelas correntes.

O verde aumenta, intenso, na borda dos caminhos.

A roupa lavada custa a enxugar. Acorda-se com a manhã branqueada pelas geadas. Pede-se neve e ela chega, descendo suavemente do pico das montanhas.

E todos gostam deste adormecimento da serra, deste deste manto branco que bate à porta e se instala no horizonte, tão gelado que faz sede e silêncio. Tão útil, a casa nunca foi tão habitada. Os vidros da janela embaciam, pelo calor sufocante da lareira eternamente acesa.

Os domingos das aldeias beirãs, tão iguais, tão lentos, paradoxalmente quentes por dentro de tanto frio. Breves momentos de sol que se abrem manhãzinha e a espaços durante o dia. Para a missa vão os sapatos novos, evitando as poças e as lamas do caminho. De joelhos e de pé reza-se, canta-se, enquanto os poucos rapazes do coro miram o rosto franzino das moças mais bonitas.

Pela tarde sobe uma névoa gelada, do fundo dos vales e espalha-se pelo povoado. É quando as trevas vêm realçar os contornos das estreitas ruelas e as pessoas se refugiam no íntimo, de suas casas. Quanto mais aumenta a escuridão, mais seus corpos entram pelo sonho.

 

Viajar pela Serra do Açor

Quantas vezes me ocorre o desejo de viajar em direcção ao Norte. Fugir de Lisboa, rumo à serra do Açor, onde o horizonte se perde por entre montanhas e o azul do céu.

Quantas vezes me surge a tentação de vaguear por aquele labirinto de estradas que serpenteiam pelas suas encostas, e nunca mais ter que enfrentar um olhar de raio inferior.

Quando a civilização parece desaparecer e o espaço se estende por mais abandono, o meu coração sente-se pulsar diferente, o pensamento viaja pelo cenário que me passa em redor.

Quanto mais familiares se tornam os caminhos que percorro maior se torna a vontade de me deixar levar por cada imagem que o olhar me conduz. O sol que desvenda lugarejos silenciosos, a sombra que oculta a depressão dos vales e anuncia a tarde que a imensidão parece ignorar.

À noite, a ténue luz dos faróis confunde-se com os pequenos focos de luz que se reúnem, meio tímidos, espalhados algures num mar de trevas, e ao virar cada outeiro, definem-se outros, quanto mais perto, de contornos mais nítidos.

Por tudo isso, é misteriosa a noite, quase medonha, ao abandono dos barulhos que se fazem ouvir para além do caminho que se leva e se consegue distinguir.

Quando a manhã volta a juntar a luz com a imensidão do espaço é quando tudo novamente sobressai no vasto colorido, moldado pelo relevo que a natureza aqui concebeu. A grandeza que constitui a serra do Açor com toda a sua beleza e esplen­dor.

Infelizmente, está cada vez mais desnudada de vegetação pelos fogos que a devastam todos os anos. Cabe a cada um de nós que a percorre, que a visita, procurar defendê-la e preservá-la.

 

As Minas da Panasqueira

Ainda o crepúsculo da madrugada não se anunciava à rainha e senhora das trevas, que reinava naquele extenso vale, e já se percebia, vindo de algures do meio do povoado, uma grande agitação.

A Lua, aproveitava a nudez do céu e a sua lumi­nosidade, denunciando aqueles momentos a todos que coabitavam consigo a noite: Eram os homens da aldeia quase todos, que se juntavam para irem para as Minas. Para trás ficava mais um fim-de-semana, que ainda estava à tona das memórias de cada um, pela frente, vis­lumbrava-se mais uma semana de árduo labor. O luar que se  espalhava pelo cami­nho, as longas cami­nhadas que já haviam per­cor­rido num e noutro sen­tido, fazia-os ligeiros, como se iluminados por um raio de sol, desaparecer pela en­costa fora, uns atrás dos outros.

À medida que se afastavam do seu alcance cada casa, cada pedaço de terra que limitava as suas recordações mais gratas, igualmente seus corações minguavam de tristeza. Mas a alma que lhes possuía o corpo depressa se incumbia de os anestesiar, a necessidade do ganha pão incutia-lhes no espírito a serenidade e a motivação suficientes para continuar.

Tudo superavam na modéstia dos recursos, todos se engrandeciam às dificuldades. No regresso era vê-los ainda mais esfuziantes a assomarem do outeiro para cá, entoando aos sete cantos a sua chegada, exteriorizando a sua alegria de viver. O espaço como que os reconhecendo, participava, ecoando na aldeia, aquela ruidosa aparição.

O peito era, nessas ocasiões, demasiado estreito para albergar um coração que parecia trasbordar de felicidade. De tudo isto, foi a Lua testemunha, quem melhor saberá contar. O Sol foi mais o companheiro dos dias passados na aldeia; do caminho da ida à missa nas manhãs de domingo; das tardes no largo da povoação, jogando ao jogo do anel e da linha, namoriscando, conversando um pouco.

Também a neve os conhece bem, dos dias de Inverno que tinham que enfrentar. Na ida, o peso da lancheira afundava-lhes ainda mais os pés no espesso manto branco; na volta escorregavam pela ligeireza e ânsia de chegar. Quantos não ficaram já perdidos no tempo, sem viagem de regresso, consumidos pelo veneno de um necessário subsistir?

A todos que lá trabalharam, em especial os Forneenses, exalto a sua memória.

 

Manhã de Inverno na aldeia!

Acordei estremunhado, pelo barulho constante do vento a bater no vidro da janela. Parecia ter sido incumbido de me servir de despertador, decidi então obedecer e levantar-me, acendi o candeeiro a petróleo que estava sob a mesa de cabeceira, e dirigi-me para junto da janela. Ao desviar as cortinas de pano, pude constatar o panorama:

Estava uma típica manhã de Inverno, fria e cinzenta. O chão húmido e enlameado do caminho denunciava a noite diluviana que se tinha feito sentir. O vento continuava a esbarrar veloz e assustadoramente no vidro como que me querendo tocar.

A água da ribeira era ligeira e abundante, aproveitando a corrente trasbordante para chegar mais longe e mais depressa, desviando, mas pouco, do seu habitual e delimitado percurso ao fundo da aldeia. Naquele preciso momento, que olhava o gelo espalhado pela vegetação da encosta da montanha, e por tudo quanto o meu circunscrito olhar alcançava em redor, começou novamente a chover e o vento pareceu finalmente acalmar.

Foi então que me encaminhei na direcção da lareira, onde o lume e a lenha ainda permaneciam calorosamente juntos, desde o último serão, sentei-me num pequeno banco de madeira, a olhar aquela terna relação de amor, e deixei-me levar, entretido pela divagação de tudo e de coisa nenhuma, através do sentimento. Todos aqueles sinais de inverno, todo o aconchego daquele momento, só mesmo na minha pequena aldeia da Serra do Açor, só mesmo no pensamento!

 

O Inverno na serra

Os lares fumegavam. Juntávamo-nos em redor do calor da fogueira, a ouvir o crepitar do lume, a olhar as fagulhas doiradas que se soltavam no ar, esperando eternecidamente pela magia do sono!

Foi assim que construí os meus sonhos de criança... voei por aquele imenso abandono, tive acesso a secretos lugares que só se encontram no céu, fui dono daquele pequeno mundo, fiz juras eternas à natureza, comprometi-me com Deus, que ainda mal conhecia, que em troco de tudo aquilo lhe entregava a minha alma...

O Inverno aprestava-se para chegar à aldeia. A serra há muito que se tinha engalanado para o receber! No entanto, naquele dia era ainda o sol que reinava pela manhã.

Um fresco aroma a pinho silvestre deambulava por entre a selvagem vegetação do monte, uma aragem húmida e perfumada que o vento se encarregava de levar até mim.

Uma tímida luz prateada, descia lentamente os íngremes desfiladeiros, demorava-se um pouco pelo povoado, num íntimo ritual matinal que aquela claridade doirada mantinha desde o Verão, e seguia finalmente em direcção da água gelada e cristalina do pequeno riacho.

Nessa altura, subitamente, uma névoa veio interromper o banho no charco, o vale inundou-se de uma sombra cinzenta e arrebatadora, as cores da natureza empalideceram!

Os cumes das montanhas principiaram a esconder-se debaixo de uma longa cortina de nevoeiro que ia lentamente descendo pela encosta de uma forma uniforme e progressiva.

Uma bruma densa e fria vinha acariciar a vegetação dos lameiros junto das nascentes e acompanhava a água que descia em correria pelas fragas ao encontro da ribeira.

O povoado ficava igualmente envolto nesse estranho manto de fumo fiado no horizonte. Quando a luz de novo se agigantou o refúgio da neblina foi os barrocos mais abruptos, esse longo tecido opaco começava então a desfiar-se em pequenos e dispersos filamentos quais finos fios de algodão levados pela brisa que se alevantou, e, tendo que recuar mais, abrigou-se novamente na parte mais alta dos montes construindo uma imponente muralha.

O escurecer precipitou de novo o arrefecimento do ar, o enegrecimento das colinas confundia-se com as trevas do firmamento.

Uma íntima união que reforçava o silêncio, ternas cumplicidades que se perpetuaram através do tempo. O brilho das estrelas e os focos de luz esbatiam-se num extenso fundo negro denunciando a aldeia situada ao fundo dum valado.

 

Noite de Natal na aldeia!

A serra sempre se deixou seduzir por aquela noite. Cumplicidades que já perduram desde o tempo do Deus menino. Ao primeiro sinal de desfalecimento da luz, aprontava-se a jurar fidelidade ao firmamento. Os montes ficavam, então, meio ocultos nessa penumbra, atenuada pelo luar, qual longo lençol de seda que a lua fazia espalhar no horizonte. O frio chegava, por essa altura, cantarolando melodias de embalar e, um pouco mais tarde, e em jeito de aparição, surgia o brilho da estrela desejada, vinda do oriente, que o povoado esperava pacientemente para celebrar.

 Ao fundo do vale, na aldeia, todos ansiavam por esse renovado anúncio da boa nova! Os lares acolhiam toda gente, um bem estar que o calor da lareira favorecia e prolongava pela madrugada. A exemplo do que acontecia lá fora, onde as pessoas conviviam, dançavam, tendo por próximo o aconchego da fogueira. Os membros da família (alguns vindos de longe que retornavam à província), sentavam-se em redor duma mesa, onde existia de tudo um pouco e em abundância: bacalhau cozido com batatas e couves tronchudas, farta carne, dum porco feito mártir da ocasião, deliciosos

enchidos; arroz doce, filhós, coscoreis,

figos e passas; vinho de paladar aveludado, apurado no empenho e na aspereza da concepção; singelas e requintadas iguarias da festa santa.

Tradições doutras eras, dum tempo em que o povo não era assediado com a quinquilharia cultural. O Natal não era distribuir votos de boas festas convencionais, nem era vivido com a superficialidade e a mercantilidade cosmopolita. O natal era realmente uma festa sagrada, passado na nostalgia do tempo invernoso da serra, nas ausências e reuniões da família que provocavam saudades e lembranças. A ternura das emoções de uma gente humanizada, a autenticidade de um sentimento religioso e colectivo, comunitariamente expresso no humanismo cristão, aprofundado nas raízes, assente na fé e noutras convicções.

O desafio que se põe hoje, e sempre, é sabermos reinventar e estimular novas formas de estar e viver as tradições, assentando alicerces no antigo, na harmonia e na identidade que nos conforta, evoluir através dum processo dinâmico e equilibrado à procura de novas experiências sociais e formas de expressão. É claro que é sempre mais fácil quando Deus nos dá serenidade e saber, quando a humilde nos enaltece, quando a simplicidade nos enobrece, quando a fé nos dá coragem, quando a natureza nos favorece!

 

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